terça-feira, 6 de junho de 2017

VÊ-LO PARTIR - "IN MEMORIAM"

VÊ-LO PARTIR



"IN MEMORIAM"

Este poema representa uma espécie de “memorial” em homenagem a quem partiu, faz hoje, dia 6 de Junho de 2017, cinco anos, mas permanece vivo na minha memória e no meu coração – o meu Marido
    
VÊ-LO PARTIR
Vê-lo partir
Não foi assim tão triste, não.
Foi muito mais triste depois,
Ao recordar, sozinha,
O caminho antes percorrido
Com ele ao lado, para mim sorrindo…
Segurando a minha mão…

Como era alegre o seu sorriso
E festivo e risonho
O meu abrigo!

Ele partiu, levando consigo
Toda a ternura que existia em mim,
Deixando, para sempre
Um vazio sem fim…

Os dias, monótonos,
Perderam toda a graça.
Sem saber o que fazer,
À deriva,
Penso na minha desgraça.

As horas vão passando.
O sol, em surdina, declinando.
Um arrepio, percorrendo-me,
Recorda-me que estou viva,
E que ele partiu…

E quando à tarde, sozinha,
Debruço
O olhar sobre o caminho percorrido,
Lembro-me dele
E, sem querer, soluço.

Mariazita

domingo, 21 de maio de 2017

VIAGEM À NORUEGA

VIAGEM À NORUEGA

Por dificuldades “técnico/informáticas” não tive possibilidade de preparar o post que tencionava publicar no dia 18.
Como não prevejo quando o dito problema estará resolvido… decidi partilhar convosco um PPS referente à viagem de duas semanas que fizemos à Noruega, na última semana de Agosto e primeira de Setembro de 2011.
A Noruega é um país com características muito próprias, com usos e costumes bem diferentes dos outros países europeus.
Tem paisagens deslumbrantes, algumas de cortar a respiração; o tráfego automóvel é muito reduzido – viaja-se essencialmente de barco, pelos incontáveis fiordes.
Nós fomos de avião de Lisboa para Oslo – capital da Noruega – e lá tínhamos à nossa espera um confortável autocarro, no qual percorremos uma grande parte do país.
Das inúmeras fotos tiradas escolhi algumas das que me pareceram mais esclarecedoras. Tive que reduzir o máximo da sua resolução (doutro modo o ficheiro ficaria pesadíssimo) pelo que a qualidade das mesmas não é muito boa.
Conto com a vossa compreensão, e espero que gostem de me acompanhar nesta viagem maravilhosa.
Liguem o som e vejam em ecrã completo.


terça-feira, 2 de maio de 2017

AS CALCINHAS DA MARIA EUGÉNIA

AS CALCINHAS DA MARIA EUGÉNIA

Maria Eugénia era um doce de pessoa!
Sempre com um sorriso no rosto a todos acolhia com carinho e ternura, pronta a proporcionar todo o auxílio a quem dele necessitasse, fosse para simplesmente dar um conselho fosse para oferecer um ombro amigo para um eventual derrame de lágrimas.
Tendo sido uma alegre bebé gorducha, transformou-se numa adolescente rechonchudinha e, mais tarde, numa jovem de formas redondinhas.
Sem qualquer complexo em relação ao seu aspecto um pouco “anafado”, quando alguém lhe dizia que talvez devesse perder um pouquinho de peso, respondia alegremente:
- Gordura é formosura.
Atingiu assim os dezoito anos, sempre alegre e feliz.
Em breve conheceu um jovem, António, com quem simpatizou bastante e que logo a cortejou.
Tratava-se dum rapaz com muito boa aparência e bem instalado na vida, que, com a aprovação da família, começou a namorar a Maria Eugénia.
Decorridos três ou quatro anos de namoro, o tempo que naquela altura se considerava normal para se conhecerem, realizou-se o casamento.
As “amigas”, cheias de inveja, achavam que, tratando-se de um rapaz tão bonito, com uma vida confortável como poucos na sua idade, bem poderia escolher noiva mais apresentável, como algumas delas, por exemplo. Não que Maria Eugénia fosse feia, pois tinha um rosto muito bonito; mas, com as suas formas bem anafadas, não devia muito à elegância.
O que as “amigas” não sabiam era que, o que tinha prendido António, era, acima de quaisquer atributos físicos, o enorme coração de Maria Eugénia, ao qual se rendera incondicionalmente.
Foram felizes até ao fim dos seus dias.
António trabalhava com importações de tecidos finos (sedas, veludos, tules…) o que, naquela época, contribuía para engrossar a sua conta bancária.
Mais tarde abriu uma loja onde vendia vestidos para noivas e acompanhantes, costurados nas traseiras da loja, onde instalara uma pequena fabriqueta.
Com o tempo, e com o seu dom especial para os negócios, em breve abria mais lojas e montava uma fábrica de confecções a sério.
Neste tipo de trabalho em que se ocupava António, a clientela era essencialmente feminina. E porque ele era, de facto, um homem muito atraente, a quem o casamento e a idade haviam aumentado o encanto natural, as suas clientes não raras vezes tentavam insinuar-se junto dele. Porém António, com um sorriso constante nos lábios, contornava a situação conseguindo manter-se fiel ao casamento. Não perdia a cliente e não traía Maria Eugénia.
Por vezes, despeitadas, e porque conheciam Maria Eugénia, quando a encontravam tentavam intrigar, insinuando que António fora visto aqui e ali, em situações mais que suspeitas.
Maria Eugénia ouvia-as com toda a atenção e delicadeza, próprias da sua maneira de ser, e no fim, esboçando o maior sorriso que podia ostentar, respondia, com humor:
- Ora! O que é que isso importa? Depois de lavado fica como novo!
E assim desarmava as “amigas de Peniche”.

Maria Eugénia teve dois filhos, que eram o encantamento dos pais.
As duas gestações não favoreceram nada o físico de Maria Eugénia que apresentava agora umas formas mais redondas ainda.
Isso não parecia preocupá-la minimamente, e a sua felicidade familiar era completa.
Com o desenvolvimento dos negócios António arranjou clientes na Madeira e Açores, os quais visitava no princípio das estações, levando-lhes mostruários das suas colecções de tecidos e catálogos dos vestidos de noiva.
Enquanto as crianças foram pequenas António viajava sozinho porque Maria Eugénia, mãe extremosa, não os queria deixar entregues às criadas.
Porém, quando eles já eram mais crescidos, e porque tinham sido educados segundo valores éticos responsáveis, Maria Eugénia começou a acompanhar o marido.
Numa dessas viagens à Madeira quando chegaram ao hotel e se instalaram no quarto, Maria Eugénia verificou, horrorizada, que se tinha esquecido de meter calcinhas na mala. Ficou aflita.
As estadias, tanto na Madeira como nos Açores, demoravam sempre duas semanas e eram feitas entre fins de Janeiro a princípios de Março.
Seria impensável andar todas as noites a lavar as calcinhas, até porque era Inverno e o mais provável seria não secarem durante a noite.
O marido, que entretanto ficara à conversa com um conhecido no hall do hotel, foi encontrá-la bastante aborrecida com o seu esquecimento. Mas logo encontrou solução:
- Depois de almoço, quando eu for visitar o cliente “X”, tu aproveitas o tempo, vais às lojas e compras todas as calcinhas que achares necessárias.
Maria Eugénia respirou aliviada. No meio da aflição e aborrecimento por se ter esquecido duma coisa tão básica com calcinhas, nem lhe ocorrera uma solução tão simples.
Tal como combinado, de tarde Maria Eugénia pôs-se em campo à procura de lojas de lingerie. Entrou na primeira que encontrou onde um amável senhor a cumprimentou com um sorriso.
Quando Maria Eugénia lhe disse o que pretendia o senhor perguntou-lhe:
- Qual o número que a senhora deseja?
Meio encabulada, Maria Eugénia gaguejou…
- Bem, o número não sei ao certo… Olhe… são para mim…
O senhor mirou-a com toda a atenção, como que a tirar-lhe as medidas. Voltou-se e retirou da prateleira uma caixa de calcinhas. E disse, olhando-a novamente.
- Penso que este tamanho deve estar bem, e até lhe dá até ao fim do tempo…
Maria Eugénia engoliu em seco, até certo ponto feliz porque o senhor não pensara que ela estava simplesmente gorda, pagou e retirou-se.
À noite, ao contar ao marido o sucedido, com uma forte gargalhada ela comentou:
- Ainda bem que ele pensou que eu estava grávida. É bem melhor do que pensar que a minha gordura é simplesmente gordura.
Abraçando-se, ambos riram a bom rir. E António rematou com a frase habitual:
- Adoro-te, minha gorduchinha querida.

 Naquela altura a Maria Eugénia estava, simplesmente, gorda, não estava grávida.
Mas já por duas vezes pudera usufruir desse “estado de graça”, e sentira-se a pessoa mais feliz do mundo.

Dedico este pequeno e despretensioso conto, BASEADO NUMA HISTÓRIA VERÍDICA, a todas as Mães de todo o mundo - cujo “DIA”, em Portugal se celebra no primeiro Domingo de Maio, este ano no próximo dia 7.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

MOMENTO DE POESIA – DESTINO



DESTINO
Olhaste para mim
Como se olhasses para uma folha de papel vazia
Onde querias gravar as palavras
Do nosso destino.

Pedi-te que deixasses
Espaço bastante entre as linhas
Para que eu pudesse escrever
Nas entrelinhas.

Não quiseste ouvir-me.
E quando tentei que chegasse junto a ti
O meu sentir,
Faltava espaço para me exprimir.

O nosso destino passou a ser
Apenas o que desejavas para nós.
Mas uma só vontade não basta
Para dois trilharem um caminho a sós.

Sem esperança de retorno,
Deu-se a despedida.
Cada um seguiu o seu destino.
E, agora, eu já não sou uma folha de papel vazia.


Mariazita

PS – Vou ausentar-me por uns dias. Quando regressar agradecerei todos os comentários recebidos.
A TODOS UMA PÁSCOA MUITO FELIZ!

quarta-feira, 22 de março de 2017

GOSTO…


GOSTO de aves, altaneiras e velozes como o vento, das suas penas coloridas, das suas plumas…


 GOSTO de chapéus, chapéus com plumas


que oscilam quando o vento lhes bate de mansinho


GOSTO do vento manso que, por vezes, acaricia suavemente as folhas das árvores, os ramos executando movimentos sensuais…



outras vezes arrastando as folhas rudemente pelo chão, fazendo-as rodopiar em danças frenéticas, com loucas coreografias a esmo, rodando, rodando sem fim, até que, sem forças, repousam na berma da estrada…
GOSTO do vento furioso, forçando as frinchas das janelas, assobiando sinfonias por si mesmo compostas…



GOSTO de relógios


 O Homem quis dominar o tempo... e inventou o relógio.
Mas o tempo riu-se, e continuou a caminhar. Sabia que nem o mais refinado relógio conseguiria aprisioná-lo.
O Tempo! Esse senhor que ao longo dos anos vai acumulando lembranças, boas e más, que marca os rostos com os sulcos da vida, que tece belos casulos de luar para guardar segredos, que leva os sonhos para o mundo do faz de conta…
Esse mesmo Tempo que passa ligeiro, e um dia, nas trevas do desencontro, nos mostra um relógio que apenas tem corda para mais alguns segundos…
Importante é aproveitá-lo... antes que ele desapareça ...

GOSTO do sol indiscreto entrando pelas janelas, assenhoreando-se do quarto onde durmo, derramando-se na cama onde acabo de acordar.



GOSTO da imensidão do mar que em tempos longínquos levou os portugueses até terras da Ásia e da América…

(A emigração funcionava ali até 1930. Hoje é um Museu, onde se encontram os registos dos emigrantes que aportaram a New York, por mar.)

GOSTO de cavalos, esses nobres animais de porte altivo, pertencentes à família dos equídeos, por vezes, com sucesso, usados em equoterapia (recuperação da coordenação motora de certos deficientes físicos), adaptados a trabalhos agrícolas e transporte, desportos e jogos, como pólo, provas de equitação e corrida,


onde podem atingir a incrível velocidade de 60 Km/hora.
São inúmeras as histórias de comportamento admirável de cavalos em campos de batalha, já que, até meados do século XX, foram usados de forma intensa nas diversas guerras que grassaram durante esses longos anos.
Ainda hoje existem as unidades de cavalaria, embora, felizmente, os cavalos já não estejam expostos aos perigos das guerras antigas

GOSTO…
GOSTO de ti quando chove, dos teus cabelos molhados,
GOSTO de ti ao nascer do sol, com o raiar dum novo dia, o rosto irradiando felicidade,
GOSTO de ti quando choras, as lágrimas sulcando-te o rosto, pérolas brilhando quais diamantes…

 GOSTO DE TI!

sexta-feira, 3 de março de 2017

MOMENTO DE POESIA

AMOR SEM AMOR
AMOR SEM AMOR

Beijaste os meus cabelos de mansinho
Com carinho jamais experimentado.
O teu suave gesto apaixonado
Meu coração deixou em desalinho.

Sem defesas ou simples resistência
Num querer e não querer entregar-me,
Um sinal que pudesse libertar-me
Dias sem fim pedi à Providência.

Nem o mais leve sinal me chegou.
Tua insistência fez-me estremecer.
Tive que decidir sozinha o que fazer:
Olvidando essa luz que me cegou.

Esperar um pouco, e o amor preservar?
Nem Penélope por Ulisses o faria
Nos vinte anos de espera em agonia
Apenas tendo o filho p’ra cuidar.

Como queres, meu amor, o meu amor,
Se eu não tenho amor para te dar…?
O sonho era bonito, p’ra sonhar…
Mas nada mais do que isso, meu amor!

Mariazita
19.02.2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DIA DE ANIVERSÁRIO


Hoje festejo o meu nono (9º.) aniversário.
Começo por vos oferecer esta prenda.




Aniversário
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais  copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...


Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
15/10/1929
 Foi-se mais um ano!
Apesar de algumas dificuldades e obstáculos, comuns ao mais comum dos mortais, consegui a energia necessária para vencer mais um, e assim perfazer 9 anos de vida.
Na caminhada foram-se perdendo alguns amigos, uns quantos neurónios e alguns cabelos J, amores e desamores, e cores, memórias,  alegrias e ilusões, tristezas e certezas, até verdades que pareciam indiscutíveis…
Sonhos, planos, alguns realizados outros ainda por realizar, foram acontecendo à medida que os dias iam passando…
Dias de entusiasmo, dias de coragem e de convite à luta, na tentativa de conseguir algo novo e diferente…
Pensamentos como pássaro que pousa e logo voa, e quando nos apercebemos já partiu para não mais voltar…

Viver e desfrutar intensamente, por vezes com paixão e sem medo nem culpa de sentir prazer, sem preconceitos ou falsos pudores, criar e recriar a vida, expor os seus amores, sorrir e brincar, por vezes chorar…

Assim é a vida da(o) blogueira(o), assim são as actividades dum blogue.
Assim percorri os últimos nove anos nesta “CASA” que é vossa, pois só com o vosso apoio foi possível chegar até aqui.

A todos um grande
BEM HAJAM!

A minha querida Amiga Lindalva ofereceu-me este miminho que partilho convosco.
 Obrigada, Amiga Lindalva

.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DIA DE REIS


Hoje, dia 6 de Janeiro, é DIA DE REIS, o dia em que se comemora a chegada dos Reis Magos ao Presépio, que ali foram para adorar o Menino, levando-Lhe, como oferendas, ouro, incenso e mirra – assim reza a História. 
 É neste dia que, “oficialmente” se encerram os festejos natalícios. 
À laia de despedida… (das Festas Natalícias) partilho convosco este “presente” que me foi enviado por um querido amigo brasileiro. 
Espero que gostem tanto como eu apreciei. 
 Um feliz 2017 para todos.

EU NÃO GOSTO DE VOCÊ PAPAI NOEL
 Não gosto de você Papai Noel! 
 Também não gosto desse seu papel de vender ilusões à burguesia. Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu ódio à humildade jogavam pedras nessa fantasia. 
Você talvez nem se recorde mais! 
Cresci depressa e me tornei rapaz, sem esquecer no entanto o que passou... 
 Fiz um bilhete pedindo um presente, e a noite inteira eu esperei contente... 
 Chegou o sol, e você não chegou. 
 Dias depois meu pobre pai, cansado, trouxe um trenzinho velho, enferrujado, que me entregou com certa hesitação. Fechou os olhos e balbuciou: 
- É pra você. Papai Noel mandou! - E se esquivou, contendo a emoção. 
 Alegre e inocente nesse caso, eu pensei que meu bilhete, com atraso, chegara em suas mãos no fim do mês. 
 Limpei o trem, dei corda, ele partiu, deu muitas voltas... E meu pai sorriu e me abraçou pela última vez.  
O resto só eu pude compreender quando cresci e comecei a ver todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse a medo: 
- Onde é que está aquele seu brinquedo? Eu vou trocar por outro na cidade. 
 Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar. E como quem não quer abandonar um mimo, que lhe deu quem me quer bem, eu disse medroso: 
 -Ah, eu só queria ele! Eu não quero outro brinquedo, eu quero aquele, e por favor não vá levar meu trem. 
Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto que, eu ainda creio, tão puro e santo só Jesus chorou. 
Bateu a porta com muito ruído, mamãe gritou, ele não deu ouvidos, saiu correndo e nunca mais voltou... 
Você! Papai Noel, me transformou num homem que a infância arruinou, sem pai e sem brinquedos. Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre para riqueza do menino pobre, que sonha o ano inteiro com o Natal! 
 Meu pobre pai, doente, mal vestido, pra não me ver assim desiludido, comprou por qualquer preço uma ilusão... 
 Num gesto nobre, humano, decisivo, foi longe pra trazer-me lenitivo, roubando o trem do filho do patrão! 
 Pensei que viajara. No entanto, depois de grande, minha mãe, em pranto, contou que fora preso. 
 E, como réu, ninguém a absolvê-lo se atrevia. 
 Foi definhando até que Deus, um dia, entrou na cela e o libertou pro céu. 
(ALDEMAR PAIVA) 

 Aldemar Buarque de Paiva (Maceió, 20 de Julho de 1925- Recife, 04 de Novembro de 2014) foi um poeta, cordelista, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico e publicitário brasileiro.
Foi o fundador da Rádio Difusora de Alagoas.
 Oficial do Exército, foi transferido para o Recife, actuando inicialmente na Rádio Clube de Pernambuco, em substituição a Chico Anísio como produtor, apresentador e director artístico.

Informação: Wiquipédia