segunda-feira, 19 de setembro de 2016

FÉRIAS/SENTIDO INVERSO

… No dia seguinte eu não trabalhei à noite e fiquei na sala. Acomodei-me no sofá e liguei a televisão.
 A minha amiga veio sentar-se junto de mim e começou a falar:

SENTIDO INVERSO
III e ÚLTIMA PARTE

- Sabes o que significa o que surpreendeste ontem?
- Calculo que sim… Ou haverá outra explicação diferente daquilo que pensei?
- Não, o que pensaste está correcto. Eu sou lésbica, e não me envergonho…
- E porque haverias de te envergonhar? Se há algum motivo para te envergonhares é o não teres sido franca comigo, quando pensámos em alugar o apartamento e passarmos a viver juntas.
- Se soubesses que eu era lésbica não terias vindo viver comigo?
- Provavelmente isso não me faria mudar de ideias, viria viver contigo, sim, mas não teria feito figura de parva…
- Mas tu não fizeste figura de parva coisa nenhuma. Quando é que tal aconteceu?
- Olha, todas as vezes que recebeste amigas no teu quarto e eu não desconfiei de nada. Achas pouco?
Nesta altura ela agarrou a minha mão, meigamente, acariciando-a com um ar perfeitamente inocente.
Eu não vi nesse gesto qualquer segunda intenção, por isso não retirei a mão.  
A minha amiga disse:
- Perdoa-me. Acredita que não queria magoar-te. Eu gosto muito, muito, de ti. Há muito tempo, desde o primeiro ano da Faculdade, que eu sentia uma atracção enorme por ti. Mas nunca tive coragem para to dizer. O facto de sermos tão amigas ainda me intimidava mais.
À medida que falava ia se aproximando, e em breve estava a dar-me pequenos beijos no pescoço, entrecortado de curtas frases - “ Deixa-me fazer-te feliz”…
Senti um frémito de prazer percorrer-me o corpo. Fechei os olhos e imaginei-me nos braços dum príncipe encantado, acariciando-me ternamente.   
Perante a minha passividade, ela avançou a outra mão e começou a desabotoar-me os botões da blusa.


Abri repentinamente os olhos e “vi” que ao meu lado estava UMA princesa, não UM príncipe.
Com suavidade mas também com firmeza, retirei a mão que tinha sobre o meu peito e afastei-me dela. Segurando-a pelos ombros, olhos nos olhos, disse-lhe, claramente:
- Eu gosto muito de ti, tu sabes. Adoro-te! Mas entre nós nunca poderá existir nada para além de uma grande mas pura amizade.
- Pois aí é que está a questão. Tu vês-me como uma irmã, e qualquer envolvimento entre nós ia ter, para ti, o cariz de incesto.
Mas tu não imaginas como pode ser doce e ao mesmo tempo arrebatador o Amor entre mulheres. Aquela minha amiga que avistaste ontem é fantástica. Deixa-me apresentar-ta. Tenho a certeza que mudarás de ideias. Eu senti, ainda há pouco, que estavas a ter prazer…
- Sim, é verdade que por breves momentos fiquei excitada. Mas sabes porquê? Porque me imaginei nos braços de um homem.
Não, minha amiga, não quero que me apresentes ninguém. Eu sei que, definitivamente, gosto de homens, e serei incapaz de ter qualquer ligação íntima com uma mulher.
A minha amiga notou o tom firme em que falei. Não insistiu. Continuámos, e ainda somos, excelentes amigas.
Este incidente não me afectou minimamente. Talvez fizesse com que me viesse à memória, com maior frequência, o que aconteceu quando andava na escola.
Será que, se aquela experiência se tivesse consumado, eu hoje seria como a minha amiga? Gostaria só de mulheres, seria lésbica? Para esta pergunta não encontro resposta.
Eu e a minha colega ainda partilhámos o apartamento por dois ou três anos. Depois ela foi viver com outra amiga, com quem estabeleceu uma relação estável, que dura até hoje.
A nossa amizade não foi afectada com a separação. Continuamos grandes amigas. Respeito a sua opção de vida tal como ela respeita a minha.
Eu continuei com os estudos, acabei o curso, e fiquei a estagiar no escritório do meu “patrão”. Namorei muito, mas sem compromissos sérios.
Há dois anos, quando festejei os meus 35 anos, conheci alguém especial. Muito especial. Houve química entre nós. Iniciámos uma relação de Amor sem sobressaltos, com os seus momentos de paixão intensa, e sentimos que “fomos feitos um para o outro”. Estamos ambos convencidos de que acabaremos os nossos dias juntos.
Entretanto, alguns meses depois de o conhecer, uma noite sonhei que eu era homem. Nesse sonho a minha Mãe aparecia olhando-me com enlevo e orgulho, e de repente notei que estávamos vestidos de cerimónia: a minha Mãe com um vestido longo, e eu com um belo smoking. Ela segurava o meu braço, caminhando lentamente ao meu lado. Ao longe vislumbrei um vulto, que não identifiquei, de alguém usando um vestido de noiva, o que me causou um grande sobressalto. Era o meu casamento!
Acordei subitamente, impressionada com um sonho tão disparatado.
Durante o dia várias vezes o mesmo me veio à ideia. E pensava:
- Como será ser homem? Os homens serão assim tão diferentes das mulheres? Deveria eu ter nascido homem? Nesse caso eu gostaria, naturalmente, de mulheres…
Nessa mesma noite tomei uma decisão.
- Quero experimentar a sensação de ser homem!
Inscrevi-me numa rede social com um perfil masculino.
Como domino razoavelmente bem a técnica da imagem em computador “construí” uma foto dum homem jovem, muito charmoso, que causa um verdadeiro delírio especialmente entre as teenagers.


Todas as noites abro a minha página e respondo às inúmeras mensagens das minhas admiradoras, a cada dia aprimorando as minhas qualidades de figura masculina, contando histórias fantásticas que as põem ao rubro.
Sou um verdadeiro herói. Bem de vida, com uma profissão liberal, sem compromissos a não ser com o meu trabalho, uns 28 anos muito saudáveis e frequentes idas ao ginásio.
Trato todas com o mesmo carinho, sem preferência por nenhuma, de modo a não causar ciúmes. Um gentleman muito diplomático.
Mas o mais estranho é que faço isto com prazer, e sinto-me cada vez mais presa ao personagem que todas as noites encarno.
O facto de a maioria, se não a totalidade dos comentários e pedidos de amizade que recebo serem de mulheres, talvez explique o prazer que me dá representar o papel de homem.
De vez em quando faço auto-análise, como sempre fiz, não querendo nunca recorrer a psicólogos. E muitas vezes me pergunto se, no fundo, eu não sentirei um certo desprezo ou desgosto pelo facto de ser mulher, e se não faço isto como uma espécie de vingança. Porque, no fundo, o que estou a fazer, é enganar mulheres, jovens, na sua maioria – pelo menos assim se apresentam – ainda que apenas no campo virtual.
Quando estas dúvidas me assaltam fico muito desgostosa comigo mesma, e durante uns dias não abro a minha página. Mas… não resisto muito tempo, e acabo por voltar lá e começar tudo de novo. Nessa altura já as minhas admiradoras me encheram a página com lamúrias…

Entretanto… está nos meus planos constituir família com o meu actual namorado. Mas, antes, tenho que lhe contar este meu segredo. Se ele o entender… passaremos a viver juntos, teremos os nossos filhos, e seremos felizes para sempre. E abandonarei a página social, quanto mais não seja por falta de tempo, pois tenciono dedicar-me à família por completo, embora sem descurar a profissão…
O meu maior desejo é que a minha prole, em número ainda não definido, seja constituída apenas por meninas. Vou vingar-me cobrindo-as de laços, lacinhos e laçarotes, flores e passarinhos, e corações, atravessados ou não por setas! Sem esquecer os folhinhos e os cabelos pela cintura.

Hoje eu pergunto-me: eu seria uma pessoa diferente, mais estável, mais segura, com menos dúvidas que, constantemente invadem o meu espírito, se a minha Mãe não tivesse tentado forçar o meu destino, querendo dar-lhe um sentido inverso?

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

FÉRIAS/SENTIDO INVERSO

…Penso que a minha sexualidade ainda não tinha despertado, o que só viria a acontecer, na prática e fisicamente, depois dos dezoito anos.

SENTIDO INVERSO - Continuação
II PARTE 

Naquela altura, com a minha amiga, não sei o que senti. Espanto, talvez.
A verdade é que eu era, com certeza, muito infantil, e com a educação algo severa dos meus pais, não tinha tido, ainda, devaneios amorosos…
A minha reacção foi, portanto, afastar-me um pouco; mas ela puxou-me carinhosamente para si e começou a beijar-me o pescoço ao mesmo tempo que tentava acariciar-me o peito, que já se notava perfeitamente, fazendo antever o que viria a ser dentro de pouco tempo.


Fui salva pelo gongo, como se costuma dizer. O telefone começou a tocar e a minha amiga foi à sala atender. Eu aproveitei para rapidamente me vestir, e quando ela regressou disse-lhe que era melhor ir-me embora porque não avisara a minha Mãe de que ia chegar mais tarde e “sabes como ela é exigente com os horários”. (A minha Mãe trabalhava em casa como tradutora, por isso quando eu saía da escola encontrava-a sempre em casa).
A minha amiga mostrou-se muito compreensiva e não insistiu para eu ficar; apenas me disse que gostava que eu fosse novamente estudar com ela, mas que avisasse com antecedência a minha Mãe.
Saí dali com as pernas a tremer. Tinha a sensação de que o que se passara não era tão inocente como a minha amiga me queria fazer crer. O meu sistema de alerta funcionara na perfeição, evitando que eu pudesse ter a minha primeira experiência homossexual, para a qual não estava minimamente preparada, e que poderia ser bastante traumatizante.
Ela ainda voltou a convidar-me meia dúzia de vezes para ir a sua casa; mas, perante as minhas escusas, acabou por desistir.
Não deixei de ser amiga dessa garota, embora evitasse, daí para o futuro, encontrar-me a sós com ela, e recusasse, sistematicamente, todos os seus convites que implicassem uma maior aproximação.
Nos anos que se seguiram até aos meus 18 anos nada de especial aconteceu no que respeita a experiências sexuais.
Penso que para isso muito contribuiu a educação que a minha Mãe me dava: muito carinho, muito amor, mas muita severidade também.
Ela conhecia perfeitamente os meus horários escolares, e não admitia que eu chegasse a casa mais tarde do que o tempo necessário para a deslocação. Para que tal acontecesse, tinha que ser previamente avisada.
À medida que os anos passavam as minhas formas iam-se arredondando, a cintura ficando mais fina e os traços do rosto mais harmoniosos.
Contra isso a minha Mãe nada podia fazer, a não ser comprar-me roupas bastante folgadas, que disfarçavam as minhas elegantes formas.
Fora dos seus olhares eu colocava um cinto que ajustava a roupa à cintura, porque cada dia sentia mais vontade de me libertar daquela maneira de vestir arrapazada. Mas com a minha Mãe não valia a pena insistir: a sua vontade era soberana. E depois… ela tinha uma maneira de se impor, uma autoridade tão natural, que eu nem sentia que estava a ser contrariada, mas sim convencida a fazer o que não me agradava.
Quando as amigas dela a iam visitar a eu aparecia para as cumprimentar,
não me poupavam elogios:
- Carminha – era assim que tratavam a minha Mãe - como a tua filha está bonita! E tão elegante! É uma verdadeira estátua! Só é pena que tenhas tão mau gosto para a vestir… Deve andar uma multidão de rapazes atrás dela…
- Já tens namorado? – perguntavam, dirigindo-se a mim.  
Eu simplesmente corava e baixava a cabeça; e antes que pronunciasse uma palavra a minha Mãe atalhava logo:
- Era só o que faltava! Ela tem é que pensar em estudar, tirar o seu curso, estabelecer-se na vida, e depois então pensar em namoricos. E ainda vai cedo! Eu casei-me com 28 anos e tenho tido tempo para realizar todos os meus sonhos. Portanto ela fará o mesmo.
Não foi bem isso que aconteceu. Com os meus 18 anos feitos iniciei a minha libertação, que implicava o corte do cordão umbilical.
Comecei a sair à noite com as minhas amigas, uma vez por outra, mas tendo sempre o cuidado de não chegar muito tarde.
A minha Mãe chamava-me sempre a atenção, embora não usando já aquele tom de exigência a que me habituara. Eu respondia-lhe alegremente, com um ar que queria significar: a meninice já lá vai, agora sou senhora do meu nariz.
Embora eu fosse muito obediente, ou talvez por isso mesmo, sempre fui muito orgulhosa. Não gostava de mendigar; e se alguma coisa que eu pedia me era recusada, eu simplesmente não insistia. O meu orgulho não me deixava rebaixar-me. Recordo-me de cenas que aconteceram e provam o que acabo de dizer, ainda eu era bem pequena.
Com esta maneira de ser e pensar não me sentia bem comigo mesma ao querer liberdade para proceder a meu bel-prazer e ao mesmo tempo ser dependente, economicamente, dos meus Pais.
Com 18 anos incompletos entrei para a Faculdade de Direito, e, ao mesmo tempo que estudava, consegui arranjar trabalho no escritório dum advogado amigo. De início fui ganhar muito pouco, mas em breve o ordenado foi aumentado. Com a educação que recebera só podia ser cumpridora… e o “patrão” era uma pessoa muito justa e honesta.
Foi assim que, aos 20 anos, já tinha amealhado o suficiente para pensar em desligar-me completamente da casa paterna, alugando um apartamento a meias com uma amiga.
Tinha, entretanto, arranjado um namorado do qual desisti quando ele começou a querer um relacionamento mais íntimo, o que não me atraía de modo algum.
Foi uma época bastante complicada, emocionalmente. Lembrava-me, frequentemente, do incidente com a minha amiga de escola.
E, sempre que o meu namorado tentava uma maior aproximação, a imagem da minha antiga colega acudia-me à mente, e eu sentia uma espécie de repulsa que me levava a afastar-me dele.


A minha colega de apartamento tinha algumas amigas que eu não conhecia, e que a visitavam de vez em quando. Como eu não mostrava interesse especial em conhecê-las, retiravam-se para o quarto para não me incomodarem. Geralmente eu estudava na sala.
Um dia em que eu tinha ido sair e voltei a casa porque me esquecera de um livro que me fazia falta, surpreendi a minha colega no quarto com uma amiga. Tinham deixado a porta aberta e os sons que pude ouvir não me deixaram dúvidas sobre as actividades em que se encontravam.


Quando fechei a porta, depois de entrar, a minha colega espreitou para fora do quarto e, ao ver-me, ficou com um ar muito comprometido.
Para mim foi um grande choque, não pelo facto em si, mas por ela nunca me ter dito ou sequer insinuado as suas preferências sexuais. Afinal, vivíamos no mesmo apartamento, falávamos de tudo abertamente…
Não me incomodou nada descobrir que ela era lésbica. Isso não ma afectava minimamente. Incomodou-me sim a sua falta de franqueza, tanto mais que eu a considerava uma amiga, e nela confiava inteiramente, confiando-lhe, até, os “problemas” que tinha com o meu namorado.
No dia seguinte eu não trabalhei à noite e fiquei na sala. Acomodei-me no sofá e liguei a televisão.
 A minha amiga veio sentar-se junto de mim e começou a falar:

Continua no dia 19 Setembro.

sábado, 6 de agosto de 2016

FÉRIAS / SENTIDO INVERSO

Como tem sido habitual nos últimos anos vou ausentar-me em Agosto (a partir do dia 05) e Setembro, retornando ao vosso convívio em princípios de Outubro.
Até lá deixarei programados três capítulos deste conto QUE NÃO É AUTOBIOGRÁFICO, EMBORA ESCRITO NA 1ª. PESSOA - e que dividi em três partes para não se tornar demasiado fastidioso, já que é um pouco extenso.
Quando regressar, em Outubro, retribuirei todas as visitas que entretanto me fizerem e que, desde já, agradeço.
Espero que gostem deste conto que intitulei:

SENTIDO INVERSO
I PARTE 


Quando eu nasci os meus pais não tiveram a alegria que normalmente os pais têm com o nascimento de um filho, simplesmente porque eu não era um filho, mas uma filha.
Na realidade eles desejavam que o primeiro rebento fosse um rapaz, com o que, provavelmente, encerrariam as actividades de procriação.
Coitados! Tiveram azar, e apareci eu, uma menina, linda, ao que dizem, e como posso comprovar pelas fotografias, que me tiraram em criança. Talvez justificado pelo facto de ter sido uma desilusão para os meus pais, na verdade não são muitas as fotos que guardo de quando era pequenina…
Acabaram por se conformar; não havia mais nada a fazer, a não ser uma segunda tentativa para conseguirem um rapaz.
Depois de eu nascer os meus pais ficaram tão abalados que precisaram de alguns anos para se refazerem e ganharem coragem para nova investida…
Dessa vez foram bem-sucedidos, e o meu irmão apareceu quando eu já tinha cinco anos.
O facto de eu ser uma menina não me prejudicou em (quase) nada.
Apesar de, ao nascer, lhes ter causado uma grande desilusão, os meus pais trataram-me sempre com o maior carinho e desvelo, e mesmo depois de o meu irmão ter nascido, os seus cuidados para comigo não diminuíram. Nunca houve qualquer diferença de tratamento entre o meu irmão e eu.
Há apenas um pormenor, relativo á minha infância, que me causa um certo desconforto quando o recordo:
A minha Mãe vestia-me sempre com roupas muito arrapazadas – calças ou jardineiras, mas sem aquele toque feminino que geralmente têm estas peças de roupa quando destinadas a meninas, e que se traduz por umas florinhas, ou bonequinhos, ou corações, enfim, qualquer floreado que é colocado no bolso ou no peitilho. Raramente usava saias ou vestidos.
O cabelo andava sempre muito curto. Nada de tranças ou totós, nem mesmo as “palmeirinhas” que todas as meninas usam no topo da cabeça, quando o cabelinho começa a crescer, por volta dos dois anitos, e que as mães enfeitam com vistosos laçarotes.
Recordo-me que isso me causava um certo desgosto. Via as minhas amigas com alegres vestidos rodados, cabelos caindo pelas costas ou apanhados em totós, à “ Pipi das meias altas”, e sentia-me inferiorizada, feia e sem graça.
As amigas da minha mãe às vezes comentavam:
- Credo, tu não tens gosto nenhum para vestir a tua filha. Nunca se lhe vê um vestidinho…parece sempre uma Maria-rapaz!
- Assim é que ela anda bem, pode correr e saltar à vontade sem precisar de se preocupar com as roupas! A Liberdade começa por aí…
As amigas não insistiam porque sabiam que não valia mesmo a pena.
A minha Mãe parecia querer encaminhar-me num sentido inverso àquele para o qual eu havia nascido – ser Mulher.
Quando fiz 18 anos pude, finalmente, começar a decidir o que vestir.
Comprei um lindo vestido vermelho, todo moderno, bem feminino, que me marcava as formas que Deus, na sua infinita misericórdia, fizera semelhantes às de uma deusa!



Consegui que a cabeleireira me “ripasse” o cabelo dando-lhe um aspecto bem feminino. E, pela primeira vez na minha vida, uma amiga maquilhou-me.
A minha Mãe esboçou um ligeiro esgar ao ver-me aparecer assim vestida na festa que me preparara com todo o esmero. Fiquei na dúvida se era desagrado ou espanto ao ver a filha como nunca a vira antes.
Mas eu estava demasiado feliz para me preocupar com esses pormenores. Foi um dia muito lindo na minha vida, que marcou o início duma grande reviravolta.
Num primeiro gesto de rebeldia comecei logo a deixar crescer o cabelo, e durante um ano a cabeleireira não lhe pôs a tesoura.
Quando já me pousava nos ombros passei a deixar que fosse tratado por mãos de profissionais.
E pude, finalmente ser, mas muito especialmente sentir-me, mulher!
Recuando um pouco até à pré-adolescência, altura em que começa a despontar a sexualidade, recordo-me que as meninas andavam pelos cantos aos beijinhos aos rapazes, ainda com alguma inocência, mas já revelando o aproximar do desabrochar das hormonas.

 

Talvez devido aos meus modos arrapazados incentivados pela minha mãe, os rapazes não manifestavam por mim qualquer interesse para além do jogo da bola – eu era sempre integrada numa das suas equipas. Acho que eles me viam como “um dos deles”…
Assim fui crescendo, e quando andava pelos treze anos, em que, se não acontece antes, é altura de despertar a grande curiosidade pelo misterioso sexo, tudo para mim continuava na mesma, pois os rapazes viam-me com os mesmos olhos de sempre, e não denotavam sentir pelo meu corpo qualquer atracção física.
Foi então que uma amiga começou a insinuar-se mais junto a mim, e um dia convidou-me para ir estudar para casa dela. Fui, contente e feliz.
Lembro-me que era um dia de muito calor.
Os pais dela trabalhavam, ela não tinha irmãos, portanto a casa estava por nossa conta.
Começámos a estudar na sala mas, pouco tempo depois, ela propôs que descansássemos um pouco e fôssemos para o seu quarto ver fotos ou qualquer outra coisa que agora não recordo; não fiz qualquer objecção Fomos!
Aí chegadas a minha amiga começou a queixar-se com calor, dizendo que ia pôr-se à vontade, e insistindo para que eu fizesse o mesmo. Tudo bem, porque não? Estava, realmente, um calor insuportável.
Ficamos, portanto, apenas com as calcinhas e os sutiãs.
Sentámo-nos na beira da cama a ver qualquer coisa, e de repente, sem eu esperar, ela, com a mão direita puxou-me pelo pescoço e deu-me um beijo na boca, ao mesmo tempo que, com a mão esquerda, acariciava a minha coxa.
Qualquer coisa em mim entrou em alerta! Eu nunca havia tido qualquer contacto mais íntimo, e em casa os meus pais eram bastante discretos, embora muitas vezes trocassem carinhos.
Penso que a minha sexualidade ainda não tinha despertado, o que só viria a acontecer, na prática e fisicamente, depois dos dezoito anos.

Continua no dia 29 de Agosto.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

VOCÊ PRECISA DE ESTÍMULO?

Tenho duas plantas de flores de cera. Conhecem? São lindíssimas.
Hoya carnosa – seu nome técnico – faz-nos lembrar que a sua folhagem é, de facto, carnuda, sem qualquer atractivo especial além daquele que possuem todas as plantas, para quem gosta de plantas.
A grande beleza reside nas flores.
É muito interessante acompanhar o ciclo da sua floração, desde que aparecem os pequeninos cachos de pecíolos com botões, 

até que se apresentam em todo o seu esplendor, lembrando guarda-chuvas floridos.


São flores que se mantêm viçosas durante bastantes dias; quando começa a aproximar-se o fim, formam, a partir do centro, umas gotas de um líquido transparente, semelhantes a lágrimas, que escorrem depois pelas pétalas e caiem para o chão.
Disse-me a minha empregada, Lina, que na terra dela lhes chamam “lágrimas de Nossa Senhora”. 

Eu tinha apenas uma destas plantas.
Trouxe-a para casa – comprei-a num horto – há já uns anos, não posso precisar quantos.
Pelo aspecto viçoso das folhas e pequena estatura – teria uns trinta cinco a quarenta centímetros de altura – via-se que era uma planta muito jovem.
Adaptou-se lindamente à sua nova casa, e a breve trecho erguia os ramos em direcção ao céu. Era altura de começar a guiá-la por um fio que lá coloquei para o efeito.
Prontamente iniciou o seu ciclo de floração, mimoseando-me com flores belíssimas.

Esta orgia de flores manteve-se por alguns anos.
A determinada altura comecei a notar a sua falta de flores. Pura e simplesmente tinha desistido de me brindar com a sua linda prole.
Continuava com as folhas viçosas, em nada denunciando a sua provecta idade, excepto na falta de procriação.
Continuei a tratá-la com o carinho de sempre, conformada com a sua aposentadoria.
Um belo dia a Lina trouxe-me uma planta de flor de cera que ela reproduzira a partir de outra que tinha em casa.
Colocámo-la ao lado da antiga, distanciada cerca de 40 centímetros. Mais ou menos  um mês depois a segunda planta, perfeitamente adaptada ao novo lar, começou a florir.
Surpreendi esta conversa da Lina com as plantas:
- "Vês? Não quiseste dar mais flores e a tua mamã arranjou outra para o teu lugar."

Deduzi que ela falava com a planta mais velha.
Não denunciei a minha presença, mas fiquei a saber que ela também falava com as plantas. Afinal não era só eu…
Senti-me um pouco mais “normal”.
Tenho por hábito todas as manhãs ir à varanda visitar as minhas plantas, regá-las se têm falta de água, retirar alguma folha seca e, confesso, também converso com elas. Até lhes acaricio levemente as folhas, enquanto converso.
Alguns dias passados a Lina foi à varanda e chamou-me, toda alvoroçada:
- "Senhora! vem cá ver uma coisa."
Lá fui, e vi que a velha planta de cera estava em flor. Fiquei admirada, pois estava convencida que o seu período de floração havia terminado irremediavelmente. Senti-me muito feliz. A minha velha plantinha, afinal, ainda conseguia brindar-me com as suas lindas flores.
Acariciei-a ao de leve e agradeci-lhe a alegria que acabava de me proporcionar.
Do alto da sua sabedoria singela, a Lina falou:
- "Sabe, senhora, no outro dia eu estive a envergonhá-la; disse-lhe que a senhora agora ia gostar mais da nova do que dela. De certeza ela entendeu, e com medo que a senhora a deitasse fora resolveu dar flores outra vez."
Será que foi isso mesmo que aconteceu?
As pessoas mais simples, por vezes, têm percepções que escapam ao mais comum dos mortais.
Será que, tal como acontece com algumas pessoas, também as plantas precisam de estímulo?

Há pessoas que, face a contrariedades que surgem, entregam-se ao desânimo e levam uma vida tristonha, sem objectivos…
Todos sabemos que, com algumas pessoas, isto é assim mesmo, precisam ser estimuladas para mostrarem do que são capazes.
Precisam ser incentivadas, ‘espicaçadas’, “metidas em brios”, para reagirem e voltarem a ter fé nas suas capacidades.
Acredito na necessidade objectiva do estímulo. Ele é, muitas vezes, a mola impulsionadora fundamental para ultrapassar a inércia.
Um exercício simples, que pode ajudar muito, é tentar fazer o que tivermos medo de fazer. Vencer essa resistência torna-nos mais fortes, conduz-nos à vitória.
É necessário ter um ideal na vida, um sonho, e para realizá-lo é preciso conservar os olhos fixos nele, lutar sempre pelo que se deseja, e acreditar que isso é possível - só quem luta merece recompensa, e dos fracos não reza a História.
A Esperança prova que há um sentido oculto na Existência. A Vida é demasiado importante para que não tentemos enfrentar os seus obstáculos, pois eles não têm metade da força que aparentam ter.
Deixemos que a nossa luz interior nos conduza, pois todos temos uma boa estrela a guiar-nos e a ajudar-nos nas adversidades.

PS – A Amiga Nina Filipe gentilmente chamou-me a atenção para um pormenor que me falhou: o aroma da flor de cera.
De facto esqueci-me de referir essa particularidade.
A flor de cera tem um perfume diferente das outras flores, muito forte, semelhante, talvez, ao perfume de jasmim…, que se faz sentir sobretudo de noite.
O meu quarto de dormir comunica directamente, por uma porta envidraçada, com a varanda onde tenho as flores de cera. Mantenho essa porta aberta, mesmo durante a noite, principalmente no Verão.
Quando a flor de cera está em flor, à noite tenho que fechar a porta - o perfume da flor de cera é de tal modo intenso que me custa respirar.
Um “Obrigada!” à Amiga Nina Filipe pela chamada de atenção.